ÁRBITRO INTERNACIONAL E COM PARTICIPAÇÃO OLÍMPICA, CUCA SODRÉ COMANDOU COMISSÃO DE REGATA NO BRASILEIRO ABVO

Carlos Eduardo Sodré, ou como é chamado, Cuca Sodré, é um dos sete árbitros brasileiros nível internacional, certificado pela World Sailing, a entidade que cuida da vela no mundo, e é o árbitro-geral, comandando a comissão de regata do Brasileiro ABVO nas regras IRC e ORC realizado em Búzios no empreendimento Aretê / BR Marinas. A competição teve 23 barcos e 214 velejadores de quatro estados (Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo e Rio Grande do Sul). O evento, organizado pela ABVO, tem o patrocínio master do Empreendimento Aretê contando com a estrutura da BR Marinas e do Hotel Aretê – Búzios, e o apoio do ICAB, da Ipanema Ventures, CBVela e Prefeitura de Búzios. A competição terminou neste sábado com cerimônia de premiação às 19h.

Cuca contou como foi sua história e o processo que levou e que se leva para se tornar um renomado árbitro não só no país, como no mundo. Ele teve como auge da carreira os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016. O paulista possui ainda mais dois Jogos Pan-Americanos em Mar del Plata, na Argentina, em 1995, Rio 2007 e fará os Jogos do Peru este ano.

Cuca é também um grande nome na vela não só como juiz, mas organizador de vários eventos em Ilhabela.

Como foram os primeiros dias de regata aqui em Búzios ? Como está sendo ? Um primeiro dia com muito vento, algumas avarias nos barcos e Búzios sendo considerado uma das capitais até mundiais da vela. 

CS – Primeiro dia foi bem difícil com ventos fortes, dificulta pro velejador nas manobras, desgaste do barco, ondas quebradas, picadinhas, dificulta pro velejador, o segundo dia mais social , média de 15 nós de vento, intensidade legal pois o barco tem velocidade e sem exagero, normalmente é o que o velejador mais gosta. Tivemos no segundo dia uma barla-sota, depois uma de percurso em função do vento sudoeste montamos um percurso de 15 milhas e barla-sota de 8 milhas, dia maravilhoso. E Búzios é essa beleza, temos condições de médio pra forte de vento, tradicionalmente temos vento forte e não está negando, condição que não é muito normal com dois dias seguidos de Sudoeste, normalmente é mais Sueste, Nordeste. Neste último dia não devemos ter vento forte, previsão de médio pra fraco, regata mais técnica. Com três dias com intensidades diferentes de vento é bom pois fica para todo tipo de velejador, abre o leque e fica mais justo pois tem gente que gosta mais de vento fraco, forte e médio. É sorte, não é sempre assim. Mas é o ideal de quem faz campeonato, teremos na média os que velejam em todas as condições.

Por que se tornar árbitro de vela ?

Cuca Sodré – Não tem uma explicação fechada. Comecei a me envolver, fazer comissão de regata aos poucos, falta gente nos clubes e me chamavam para ajudar pois faltava juiz x ou diretor y do clube, aí fiz uma, duas vezes e fui tomando gosto pela coisa, velejo desde pequeno, corri vários campeonatos em várias classes diferentes, fui um velejador mediano e como juiz me identifiquei. Continuo no mundo que gosto, que é o da vela, gosto de velejar regatas mais sociais e virei árbitro há 22 anos mais ou menos. Sou árbitro internacional há 16 anos e uns 6, 7 anos fui nacional.
É a média que dura para ser um árbitro mundial, seis, sete anos ou você foi mais rápido ? 
CS – Eu fui mais rápido, faltava juiz em São Paulo e daí eu levantava o dedo e quando fui ver estava mega envolvido. Teve um curso da ISAF, que hoje é a World Sailing, que o pessoal da Inglaterra veio para São Paulo, me inscrevi, passei na prova. Precisava ter currículo. Precisava ter uma quantidade X de regatas para ter o certificado, fiz e peguei a certificação internacional há 16 anos.
Como é o passo a passo para ter essa certificação internacional ?
CS – O processo funciona você fazendo regata do seu clube, pequenas , não precisa certificação nenhuma, pegando gosto você vira um juiz regional, no seu estado em diferentes níveis, a partir desses é preciso ter certificação da Federação estadual, o próximo passo é virar juiz nacional, é preciso ter certa bagagem, não basta apenas passar na prova. Passando dessa fase é preciso passar na prova da World Sailing, toda em inglês, prova difícil. Depois que você passa você precisa ter currículo suficiente para ser aprovado. É preciso fazer eventos de gabarito internacional, ou seja, Campeonatos Mundiais, Sul-Americanos e etc. envia seu currículo para a World Sailing e vai se certificar ou não. Essa certificação dura 4 anos e é renovada, eles fazem avaliação dos velejadores sobre os árbitros, perguntam se o Cuca está indo bem ou fazendo bobagem, erros, junto com o currículo que você tem. Eu renovei ano passado, renovei quatro vezes já.
Tem que ter número mínimo de regatas feitas para essa renovação ?
CS – Sim. Pelo menos três eventos grandes internacionais. Última vez que renovei tinha Olimpíada, Pan-Americano, evento no Peru, na Argentina, no Uruguai, é preciso fazer eventos fora do seu país. A organização chama o juiz em função com amizade, conhecimento da classe, com alvará da classe e CBVela, não tem colocação de cima pra baixo igual é no futebol na FIFA que indica esse e aquele. É um pouco diferente na vela, mas no mínimo três campeonatos muito importantes depois mais três como Sul-Americano etc.
O que é mais difícil, mais desafiador sendo um árbitro de vela ? Tem muita reclamação dos atletas ?
CS – Como em todo esporte você não pode esperar que o atleta goste de você. A maioria das vezes você não pode achar que o atleta é seu amigo, é competidor, pode até ser amigo fora, mas na raia é competidor e é preciso ser justo, as pessoas misturam as coisas, aí um ou outro fala, ‘ah, mas estava escapado!’, tava escapado, tava na posição, então tava. Dentro de mim sei que estou fazendo meu trabalho, a justiça e o que eu tou vendo sei que está certo. Não se pode agradar todo mundo, não existe dois pesos, duas medidas, temos que fazer o que a regra manda. Jesus Cristo não agradou todo mundo, não é ? Morreu pregado.
Ponto alto de sua carreira foram os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro ? Como foi a distribuição de arbitragem lá ?
CS – É. Jogos Olímpicos é uma coisa única para todo. É um árbitro para cada raia, foram 5 raias, área de regata, cada juiz cuidava de uma delas. Em 80% do tempo da Olimpíada fiz a classe Nacra, mas fiz também regata do 49, fiz um dia regata de Finn. Em função do que a organização quer para cada determinado dia, quem estiver naquela área eles trocam para onde você está. Um dia fiz Nacra, terminou, depois começou 49, eu estava na raia da Ponte Rio-Niterói, mas 80% fiquei na Nacra. Com certeza os Jogos Olimpícos foi o ponto alto da minha vida, não sei se farei outro. Pan-Americano é um negócio muito legal para nós que somos latinos, encontramos muitos amigos. O que curto muito são velas de entrada, das crianças, de 8 até 15 anos que é a classe Optmist, você tem uma satisfação de ter um menino começo, você vê o menino com 8, 10, 12 anos, depois mais a frente você vê eles velejando em barcos de Oceano. O último que fiz de Optmist em Ilhabela eram mais de 223 barcos, você imagina administrar 223 crianças, 646 pais, não que seja o pior, mas o pai tem aquela expectativa de que eu sou pai, quer o melhor pro filho, você precisa administrar os egos, ansiedades. Não adianta você chegar na água, voltar e depois sumir, não é assim, um cara ou outro vem para agradecer, dar bronca, reclamar, e preciso fazer meu trabalho em administrar, um pai cúmplice na história. Na hora que subiu a bandeira você precisa não tem negócio de pai, mãe, filho, largou escapado, está escapado. Pode ser quem for, presidente disso, daquilo, é barco, é o número, tá errado, tá errado. Como você não tem uma câmera fixa igual tem na Fórmula 1 que o cara passa a 350km/h e a câmera pega quem passou 10cm a frente de outro. Você põe a onda que tava ontem aqui em Búzios, 30 nós de vento, tudo balançando, não existe nada que registre a imagem, é a palavra do árbitro.
Em alguns outros esportes não se costuma colocar em eventos internacionais árbitros do mesmo país que está competindo…
CS – Em eventos internacionais você mistura pois como são vários países competindo dificilmente você não vai pegar um país com um juiz que não tenha envolvimento com o país de algum competidor. Na Olimpíada tinha eu, um cara da Nova Zelândia, um japonês, na Barla-Vento um australiano. São várias nacionalidades. Dificilmente você pega uma raia – pode acontecer – que tenham juízes sem nenhum país envolvido nela. Quase sempre terá um juiz com algum velejador do país dele. Quando fazemos o Brasileiro como esse, também faço em Ilhabela, chamo árbitro de diferentes estados como fiz em Optmist, tinha gente de Porto Alegre, Salvador, Rio de Janeiro. É importante ter pessoas de várias cidades, por questão de transparência.
Dá para conseguir viver sendo árbitro de vela ? Viver da arbitragem ?
CS – Não existe no Brasil viver sendo árbitro de vela. Eu vivo da vela profissionalmente, mas meu maior ganha-pão é a organização de eventos. Esse ano organizo a Semana de Vela de Ilhabela, Copa Suzuki, Brasileiro de Optmist, Mundial em Outubro que organizamos desde o ano passado com hospedagem, containers , lançar em alfândega, expectativa de 80 atletas do Open e 40 juvenis, em média devemos ter 20 países, 18, por aí.
O que dá mais trabalho ou dor de cabeça ? Arbitragem ou organização de eventos ?
CS – São dores de cabeça diferentes. Ser organizador é mais complexo, é preciso ver desde pulseira para a pessoa entrar, fazer documentação, patrocínio, estacionamento. Ser só o juiz na hora você precisa tomar cuidado, estar na água para que a competição seja justa, mas às vezes você faz seu trabalho e em seis, sete horas e para organizar um campeonato desse o Kadu (Ricardo Baggio, organizador do Brasileiro ABVO) se perde meses. Eu velejo e também me coloco no lugar do velejador, a raia ficou torta, etc, fico bravo comigo mesmo, não consegui fazer o melhor para o velejador. Hoje (sexta-feira) eu estaria adorando ter velejado, achei a regata bárbara, vi o resultado. No tênis por exemplo você tem a bolinha pinga ali você pode ter uma câmera pra olhar e conferir e dá uma satisfação de ter acertado, aqui você não tem.
Pois é, chegou há pouco no futebol o VAR, no tênis, no vôlei temos, só nos eventos maiores. Na vela já cogitaram ?
CS – Já cogitaram, fizeram várias coisas, mas as coisas não são fixas e sim variáveis, um barco da comissão de regata e se fala ‘ah, então ancora’ aí você põe o cabo da âncora, o vento torce. Tentaram colocar sensor, mas numa Olimpíada com o recurso que tem daria para ter feito chip, etc, mas não conseguiram algo que seja justo. A vista humana enxerga muito mais que uma filmadora. Um câmera parado olhando, duas, três pessoas enxergando será melhor que a câmera onde não se tem profundidade, é diferente de uma bola que quica aqui e se dá ponto. A profundidade e o balanço da vela é muito dinâmico. Vai acabar acontecendo uma hora, mas é difícil.
Você é a favor da tecnologia para ajudar na arbitragem ?
CS – Eu acho que a tecnologia é sempre bem-vinda, no Brasil fui a primeira pessoa a montar raia com GPS. Faz quase 28 anos. Achava que precisava ter tamanho X para a regata ter tempo Y, mais ou menos o mesmo tempo as regatas. Aqui em Búzios 1h15, 1h20min é o ideal para regata Barla-Sota de Oceano, as velocidades dos barcos oscilam de acordo com o vento então você aumenta ou diminuí a distância. Na quinta a regata tinha 2,2 milhas e na sexta 1,8 milhas, na quinta ventou mais, é saber fazer as contas e tentar acertar o máximo possível. Hoje é tranquilo, antigamente, 20 anos atrás custava muito caro. Antes você media pegando uma lancha colocando a velocidade máxima dela e o tempo que fazia no mar e ficava naquela direção, algo bem manual. Na água como você sabe ? Era algo mais precário, em função da velocidade do barco. Sou bem a favor da tecnologia, ainda não chegou, quando chegar será nos grandes eventos.
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